segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Ki Tissa e as lições do meio shekel



A parashah dessa semana (Ki Tissa - Êxodo 30:11 a 34:35) fala de diversos assuntos, como o censo, a construição da pia no qual o lavatorio deveria purificar-se antes de entrar no santuario; também o óleo usado na unção dos utensilios e cohanin, e o incenso; a aliança do shabat conclui o primeiro ciclo trienal dessa parashah.
O censo foi ordenado a ser feito aqui sob a forma de doação; isso nos leva à pergunta: quanto nós valemos? Só podemos responder se soubermos nos avaliar perante o mundo, a comunidade e nossa família. Tal percepção de valor pessoal é importante, pois não valemos o que temos, mas aquilo que somos capazes de dar, compartilhar. Por isso o recenseamento foi feito através da doação, de um valor pequeno, porque não era o valor da oferta, mas a pessoa sentir que ela é igual às demais, que não deve se sentir inferior, como um peso morto em sua existência.
Qual a diferença fundamental entre o homem e os animais? Se acompanharmos uma manada de elefantes ou qualquer outro grupo de animais, perceberemos que o efeito que eles causam no mundo é mínimo. Já o homem causa grandes transformações no mundo, na sociedade. O homem foi criado com o atributo da criação, e a partir de suas experiências, ele é capaz de criar e adaptar situações na sua vida. Nossa capacidade de empreender, está ligada à capacidade de dar. Tudo que fazemos é preciso empreender.
Por exemplo, casamento: é preciso empreender uma idéia de se casar, e a partir de então se gasta energia, tempo, habilidade, conquista, investimento, etc... O propósito de Deus para o sacerdócio de Israel requeria deles uma grande dose de empreendedorismo.
Era para ser uma nação sacerdotal e precisavam investir nisso. Ex 19:3-6 - Moisés subiu ao Eterno e Deus lhe disse: se me obedecerem,... serão nação sacerdotal. 1 Pe 2:9-14 - Vós sois raça eleita, sacerdocio real, nação santa... afim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. No momento em que tomamos parte na aliança, através de Mashiach e do conhecimento da Torah, acabamos por assumir o mérito e a responsabilidade de sermos uma nação sacerdotal, afim de proclamar as virtudes do Eterno, que nos chamou das trevas para a luz.
Cada pessoa precisa entender que o dinheiro da comunidade advem das contribuições do povo, com seus dizimos e ofertas, ou seja, empreendermos nossos valores na divulgação da mensagem. O dizimo é uma forma de reconhecimento de que tudo que possuímos vem das mãos do Eterno.
Pirke avot 3:17 fala que a cerca da riqueza são os dizimos.
Não há nada mais gratificante do que perceber que alguém lhe é grato por algo que você fez. Mesmo que a pessoa não lhe agradeça, aquele que ajuda, faz tsedakah, aumenta sua própria auto-estima.
Os sentimentos ruins nos impedem de empreender em coisas boas. Sentimentos como ciúmes, inveja, prejudicam nossa auto-estima e gastamos nosso tempo preocupados e pensando em como prejudicar a alguém, quando o único prejudicado acaba sendo nós mesmos.
Na contagem, cada um trazia meio shekel, porque a pessoa deve sentir que sozinha, ela não é completa, e que para sermos um, precisamos de nosso próximo. Hoje a comunidade pode ser grande, mas a comunidade forte não é a grande em números, mas é aquela que é capaz de transformar o mundo. Os dizimos são voluntários, mas baseado na Torah, eles são compulsórios. Deus exige que a décima parte de nossas riquezas seja compartilhada com o sacerdócio. Sacerdócio não apenas se refere aos que ocupam cargos, mas ao oficio de propagar a mensagem de um povo com tal missão.
Pirke avot 5:14 fala daqueles que contribuem e do sentimento de egoísmo, daqueles que desejam tudo para si, e são considerados ímpios. Justos são aqueles que abrem mão de suas próprias riquezas em favor do próximo. Reter dízimos, ofertas e abster-se de ajudar ao próximo é uma auto-declaração de impiedade.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Mishpatim e a virtude da paciência.


Na parashah de Mishpatim, começamos a ver os estatutos (tradução da palavra hebraica Mishpatim) que o Eterno deu aos filhos de Israel. Sabemos que são 613 mandamentos, relacionados a vários aspectos da vida judaica, mas nem tudo é tão simples assim como parece. Por exemplo: Moshê subiu ao monte Sinai, e de lá desceu com as tábus da lei (10 mandamentos) e com  o livro da lei (êx 24:7) e o povo começou a cumprir a Torah, como havia prometido, na famosa frase: "faremos e obedeceremos" (Êx 24:8)?
 
A verdade é que, assim como a constituição de um país leva anos para ser elaborada, e até que o povo tome conhecimento e a lei seja aplicada, não foi coisa de minutos e Moshê desceu com toda a lei ao povo israelita que perambulava pelo deserto.
 
Toda a parashah de Mishpatim é interessante, e o sábio deve aplicar-se a aprofundar no conhecimento e derivações de cada mandamento ali expressado, mas vejamos os versos finais, do Maftir:
 
Êx 24:15-18 - “ Subiu Moisés ao monte, e a nuvem cobriu o monte. E pousou a honra do Eterno sobre o monte Sinai, e cobriu-o a nuvem SEIS DIAS; e chamou a Moisés no SÉTIMO DIA, do meio da nuvem. E a aparência da glória do Eterno era um fogo consumidor sobre o cume do monte, aos olhos dos filhos de Israel. E entrou Moisés pelo meio da nuvem e subiu ao monte, e esteve Moisés no monte QUARENTA DIAS E QUARENTA NOITES.”
 
Moisés havia ido até ao Monte (antes de subi-lo) com Josué, Arão, Nadabe, Abiú e mais setenta anciãos de Israel. Daí só Moisés sobe. Uma vez lá, porque Deus não lhe apareceu de uma vez? Mas não, teve uma nuve, que ficou seis dias cobrindo o monte, e só no sétimo dia é que Moisés foi chamado. Por fim, ele ficaria ali quarenta dias seguidos, para depois descer ao povo.
 
São várias liçoes que podem ser tiradas disso tudo. Por exemplo, o povo estava lá, esperando. Será que não poderia ser mais rápido o processo? Por quê fazer um povo, homens, mulheres e crianças esperarem todo esse tempo?
 
Imagine Moshê lá no alto da montanha e vem uma nuvem e nada, fica lá, parada por uma semana. Que angústia não?
 
Isso tudo contrasta com a pressa que vivemos hoje. Acordamos e já vemos o jornal que praticamente instantaneamente mostra notícias do mundo todo; coisas que estão acontecendo naquele momento.
Daí saímos e vamos trabalhar. Quem utiliza computador, internet, deve se dar conta de que a internet fica cada vez mais veloz e entretanto, isso parece não ser suficiente.
Lembro-me que há não muitos anos atrás, a internet discada era o que havia, e todos exercitavam a paciência diante daquele barulhinho que o computador fazia ao discar.
É um enorme constraste com a velocidade de hoje em dia, em que um filme em alta definição demora menos de meia hora para ser feito o download, e ainda assim ficamos bravos pela "lentidão".  Não por acaso, desaprendemos a apreciar as coisas.
Antes almoçavamos, apreciávamos o gosto dos alimentos; hoje, engolimos algo num fast food. Antes, viamos nossos filhos nascer, curtíamos cada dia, cada fase da infância deles, havia tempo para brincadeiras; hoje, quando vemos, nossos filhos já estão adolescentes e logo saem da casa.
 
O que Moshê teve não foi meramente paciência, mas uma oportunidade de desfrutar de quarenta dias com D-us, no alto de uma montanha. E é isso que precisamos.
Se o estudo da parashah demora mais de 50 minutos, não se desespere para ir embora, desfrute do aprendizado. Se as rezas demoram, não reclame, reze!
 
A bíblia diz em Eclesiastes, num texto muito conhecido: "Há tempo para todas as coisas, todo o propósito debaixo dos céus"
 
Todos pedimos coisas a D-us em nossas preces. Todos temos ansiedade para que algo chegue a nós logo, mas que tal exercitar a paciência e a contemplação?
Israel, todo um povo no meio do deserto e Moisés lá, no alto do monte, no meio de uma nuvem... haja paciência.
 
Se aprendermos a esperar, a confiar no tempo de D-us para nossas vidas, contemplaremos as bênçãos de D-us sobre nós. Mas por outro lado, os apressados nunca atingirão a plenitude com o mérito de terem esperado pelo tempo de D-us. Paciência!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um povo livre - Yitro



Antes de entrar no texto da parashah de Yitro (Ex 18 a Ex 20), é interessante fazer uma breve contextualização histórica.
Israel havia habitado por séculos no Egito, onde, após a morte de José, e com o surgimento de uma nova liderança, um novo faraó, o povo hebreu acabou se tornando escravo e logo se habituaram com essa situação. Só que com o passar do tempo, pediam a D-us por um libertador. E o Eterno enviara a eles Moshê.
Pouco antes da libertação final, vale lembrar que “houve uma negociação” entre faraó e Moshê, que desejava que seu povo pudesse sair e livremente adorar ao Eterno.  Mas porque os israelitas precisavam ser livres para adorar? Não podiam simplesmente continuar sendo escravos  e adorar a D-us assim mesmo? O fato é que não é possível. E agora entramos no contexto.
Nessa parashah, com os dez mandamentos, os israelitas, finalmente livres, começam a receber as leis do Eterno.
Só um povo livre pode ter condição de legislar e ter sua própria constituição. A Torah só poderia ser entregue a Israel depois que eles saíssem do Egito. A principal luta do povo de Israel era e continua sendo pela liberdade, pois só através dela podemos servir ao Eterno.
Qualquer trabalho (emprego) hoje não nos isenta de cumprirmos a Torah. Por isso, hoje, também devemos buscar nossa “liberdade”.
Uma das diferenças entre gentios e judeus reside no fato de que o gentio se questiona: “eu preciso fazer isso para ser salvo? Isso é ponto de salvação?” Já os judeus estão preocupados em “como faço para agradar melhor ao Eterno?”
Ao saírem do Egito, o Eterno propiciou aos israelitas a oportunidade de servi-Lo com liberdade, sem restrições. Foi aí que se revelou o caráter de todos. Na liberdade. Nem todos estão dispostos a “servir ao Eterno” com intereza de coração.  E assim o é até aos dias de hoje.
Entre a segurança de um bom emprego, salário em dia, e o pão garantido sobre a mesa, e a liberdade para buscar seu próprio trabalho e poder servir melhor ao Eterno, mas sem garantias de salário, as pessoas preferem a segurança.  Ocorre que, quando optamos pela “liberdade”, exercemos a confiança, a fé, a dependência de D-us.
Para quem deseja se “converter” e unir-se a Israel, é preciso primeiro se desvencilhar do Egito e buscar sua liberdade, para aprender a confiar em D-us. Vejamos o exemplo de Israel: No Egito, eram escravos, mas tinham suas casas, alimentos e viviam “tranquilos”. Ao sair dali, para um lugar desconhecido, o que os esperava? Será que teriam terras, teriam alimentos? Não por acaso, logo que saíram, muitos já se queixaram pedindo por comida, com saudades dos melões, dos alhos, “onde comiam a fartar no Egito”.  É preciso coragem e ousadia para alcançar a liberdade plena.
Imagine-se como escravo no Egito. Você acha que o faraó permitiria aos milhares de escravos israelitas que tirassem o shabat para buscar ao Eterno? E que cumprissem os yamin tovim? Isso sem contar qualquer outro aspecto dos 613 mandamentos.
E por falar em 613 mandamentos, de certa forma todos eles estão contidos nos chamados 10 mandamentos (ou 10 palavras)
Vejamos um pouco dos 10 mandamentos:
- Os 3 primeiros são relativos exclusivamente ao Eterno.
- O 4º mandamento, do shabat, tem relação com D-us e os homens.
- Os outros 6 mandamentos estão vinculados ao próximo (aos homens).
Não por acaso a somatória de 3+1+6 tem como resultado 10. De qualquer forma, quer sejam os 613 mandamentos, quer sejam os 10, de forma resumida, só seremos capazes de cumpri-los se formos um povo LIVRE.
Não coloque impecilhos para obedecer à Torah. Se você deseja servir ao Eterno de coração, busque a sua liberdade; aprenda a confiar em D-us e a alcançarás.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Beshalach e as mulheres exemplares de Israel



Estudar as parashiot traz sempre uma oportunidade de novos aprendizados e cada líder traz uma abordagem diferente. Isso é especial! E eventualmente, durante a leitura da Torah, eu me pego fazendo exercícios para a mente, tentando encontrar novas perspectivas sobre o texto da semana. Isso é bom, nos leva a uma busca mais aprofundada sobre um ou outro verso e quem sabe, um pensamento nosso, possa ajudar a aprimorar o estudo naquele shabat?!
Nessa semana, a parashah de Beshalach falava sobre a saída do Egito, e quando os israelitas finalmente saem e veem seus inimigos perecerem no mar, Moshe e o povo entoam um cântico alegre exaltando ao Eterno. Também na haftarah, depois do inimigo ter sido derrotado, Débora e Barak entoam um cântico. E deve ser assim mesmo: sempre quando vemos alguém cantando já logo nos damos conta de que a pessoa está alegre. Talvez por isso mesmo Tiago dizia: “Está alguém contente? Cante louvores.” (Tg 5:13)
Em ambas as situações, tanto com Moshê, como com Barak, a participação de algumas mulheres foi fundamental (Mirian e Jael).
Nossos sábios já diziam que as mulheres possuem em si mais espiritualidade, uma relação mais próxima com o Eterno e por isso mesmo, elas são mais emotivas, sentem a D-us de uma forma mais especial. Isso não deve jamais ser desprezado, e bem verdade, é feliz o homem que sabe valorizar essa espiritualidade da esposa, a começar pelo momento especial em que ela acende as velas do shabat, e traz a luz da santidade desse dia pra dentro de casa.
Embora Mirian não seja uma personalidade de grande destaque na Torah, ela é digna de reconhecimento, e o Eterno diz: “Pois te fiz sair da terra do Egito e da casa da servidão te remi; e enviei adiante de ti Moisés, Arão e Mirian.” (Mq 6:4).
Ela foi uma das figuras fundamentais para Israel durante a história do Êxodo do Egito, e ao ser colocada pelo próprio D-us como enviada ao lado de Moshê e Arão, o Talmude afirma ser ela um dos “três bons sustentáculos” para a libertação do povo. (Taanit 9a)
Na parashah de Beshalach lemos: “Então, Miriã, a profetisa, a irmã de Arão, tomou o tamboril na sua mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças. E Miriã lhes respondia: Cantai ao SENHOR, porque sumamente se exaltou e lançou no mar o cavalo com o seu cavaleiro.” (Êx 15:20,21)
Mirian tinha o espírito de liderança, pois as mulheres imitaram seu ato e todas saíram atrás dela com tamboris e danças. Isso é fantástico! As mulheres israelitas talvez não imitariam a Moshê, não cantassem, mas tão logo Moshê começou a cantar, sua irmã despertou nas mulheres o desejo de sair dançando atrás dela em exaltação ao Eterno.
O cântico de Moshê, por mais belo que fosse, talvez não transmitisse, por si só, toda a alegria daquele momento, toda a gratidão ao Eterno; era preciso algo mais, e quem trouxe esse algo a mais foi Mirian, com seu exemplo contagiante.
Além disso, “chama a atenção o fato de as mulheres terem tambores. Afinal, quando o povo judeu saiu do Egito, as mulheres não tiveram tempo de preparar nem a massa do pão... Então como foi que deu tempo de levarem consigo tambores?! Convenhamos, este não é, definitivamente, um artigo de primeira necessidade! Nossos sábios explicam que este é um dos sinais da grandeza dessas mulheres: “De onde tiraram tambores e como aprenderam a dançar?” Resposta: estavam tão convecidas dos milagres que D-us faria para o povo judeu no deserto, que levaram consigo instrumentos musicais e prepararam danças para celebrar estes prodígios. As mulheres de Israel sabiam que aconteceriam milagres. Elas se preocuparam com o lado espiritual e não com o material.” (Parágrafos extraído do livro As Mulheres da Bíblia)
Homens são muito práticos, e essa praticidade eventualmente nos impede de sentirmos o espiritual que nos cerca. Por isso o Eterno nos permitiu o casamento, pois nossas esposas nos conectam com o Sagrado e compartilham conosco toda a espiritualidade que elas carregam em seus corações e atos.
Se Mirian foi uma das três pessoas que o Eterno escolheu para tirar Seu povo do Egito, o que podemos dizer de Jael?
Jael (que significa D-us está sobre ela) nos mostra a força e a sabedoria de uma mulher nos momentos de crise. Tal qual ocorrera com os israelitas, que acabaram sendo escravos no Egito, tempos mais tarde, Israel caiu nas mãos do rei de Canaã, chamado Jabim. E lá, eles pediam por um libertador.
Baraque, chamado por Débora para libertar seu povo, ficou receoso, e queria que ela fosse junto. Então Débora disse: “Certamente, irei contigo, porém não será tua a honra da investida que empreendes; pois às mãos de uma mulher o SENHOR entregará a Sísera.” (Jz 4:9)
Coube à Jael a oportunidade de matar o inimigo de seu povo, quando Sísera, já vendo seu exército como derrotado, fugiu, e os homens de Israel não o alcançaram. Então ela, com sabedoria (embora aparentemente fazendo algo errado) o convidou para entrar em sua casa, e depois de tê-lo acolhido, cobriu-o e fez com que ele dormisse para, enfim, matá-lo com uma estaca na testa. (Jz 4:17-24)
As grandes mulheres têm o poder de mudar a história com sua personalidade, e isso acontece através de atitudes excepcionais em situações sempre críticas. Jael era uma mulher virtuosa, obediente ao marido e boa dona-de-casa, mas simultamenamente era uma mulher dotada de forças descomunais; além de corajosa e destemida, características que veem à tona num momento crucial da história de Israel.
Nas grandes histórias de nosso povo, alguns homens tiveram seu nome exaltado, dignos de honrarias, mas assim como Mirian e Jael, muitas são as mulheres que merecem nosso reconhecimento por seu esforço em prol do povo.
Mulheres israelitas de verdade prezam pelo sucesso espiritual de Israel e não buscam o reconhecimento e méritos humanos. Para elas, acender as velas do shabat, trazer a luz da santidade ao interior de seu palácio, de seu lar, é tão satisfatório quanto libertar o seu próprio povo, pois uma mulher que cumpre a Torah com alegria, compartilha da Shechinah Divina com todos (de seu lar, de seu povo e de toda a humanidade)
Que os exemplos de Mirian, Débora e Jael sejam inspiradores à todas as mulheres, e que nós homens, possamos valorizar a cada dia a oportunidade que HaShem nos concede de vermos a Sua luz brilhar em nossos lares através da beleza e espiritualidade de nossas eshet chayil.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Vayigash e o tempo de chorar/tempo de levantar e oferecer sacrifícios.

 
Em gn 45:27 lemos: “vendo Jacó, seu pai, os carros que José enviara para levá-lo, reviveu-lhe o espírito.”
 
Jacó esteve de luto pela perda de seu filho José por 22 anos, desde que José foi vendido por seus irmãos, aos 17 anos, até que ele se tornou governador do Egito, e tendo passado os sete anos de fartura e mais dois de fome, finalmente ele teve a alegre notícia de que seu filho ainda estava vivo.
É reconhecido que Jacó decaiu de seu nível espiritual com a perda de seu filho preferido. Deixara o vigor, a alegria de viver e abandonara o costume de oferecer sacrifícios ao Eterno. De certa forma, ele apenas “sobrevivia”.
 
Ec 7:2 “melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração.”
O luto traz consigo algo inevitável, a dor pela perda de alguém que nos é querido e ninguém pode mensurar a dor alheia, mas é preciso seguir adiante e viver, não apenas sobreviver.
Quando Eclesiastes nos fala de que é melhor ir onde há luto, isso não significa “vivermos de luto”, mas nos faz um convite à reflexão acerca do fim de todos os homens e que tomemos isso em consideração.
 
Que lição tiramos disso? Que é preciso viver com sabedoria. Que tomemos em consideração que depois que a vida cessa, aí sim, não temos mais nada a fazer, mas desfrutar os dias, correr atrás de nossos objetivos, lutar por aquilo que acreditamos, é obrigação dos vivos.
 
No judaísmo, o periodo de luto, chamado de Shiva, é dividido em cinco partes:
• aninut - tempo que decorre entre a morte e o sepultamento. É o período mais doloroso e intenso.
• Shivah - os primeiros sete dias, que se subdividem em duas partes, com os três primeiros dias após o funeral, como tempo para o choro e lamentação. Depois nos próximos dias da primeira semana, o enlutado já é capaz de falar de sua perda e aceitar o consolo. Isso não diminui sua dor, mas já o prepara para seguir a vida.
• Sheloshim - os primeiros trinta dias, quando o enlutado já é encorajado a sair de casa, retomando ao convivio social lentamente.
• Primeiro ano - Durante esse primeiro ano após a morte do ente querido, devemos buscar retomar nossa vida, aos poucos deixarmos de lado a dor e retomarmos a alegria de viver.
 
Jacó ficou 22 anos longe da alegria, sua vida foi deixada de lado, inclusive na Torah, quando passou a falar basicamente de José, desde que foi vendido por seus irmãos. Jacó só ressurge com a notícia de que seu filho amado estava vivo.
E o que ele fez, logo que lhe “retornou o espírito”? Ofereceu sacrifícios ao Deus de seu pai Isaque.
 
O salmista Davi nos diz: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” Todos teremos dias tristes, e que sejam poucos, mas é preciso levantarmos do pó, e continuarmos a viver nossos dias com gratidão ao Eterno.
Quando você for a uma casa onde há luto, lembre-se de meditar que você ainda está vivo e que deve continuar a correr atrás de seus ideais, ainda é tempo de realizar seus objetivos e tornar seus sonhos em realidade.
 
É tempo de se levantar, você tem ofertas de sacrifícios de agradececimento ao Eterno para fazer. Não perca vinte e dois anos de vida se lamentando, sem o espírito; chore, pranteie pelo seu morto, mas se levante para viver. Nem Deus e nem seu ente querido gostariam que você desistisse de viver. Isso nunca foi prova de amor, mas sim, falta de sabedoria.

* Baseado em parte da explanação da parashah pelo Rosh Yehudah, em Curitiba, dia 07/12/2013.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Miketz: “Dos meus pecados me lembro hoje...”


Miketz é a parashah que marca a virada na vida de José, de escravo prisioneiro a governador do Egito. O texto vai de Gn 41:1 a 44:17.
Por incrível que pareça, há um verso que chama a atenção nessa parashah e que não tem nada a ver com José, mas com o copeiro-mor do faraó.
Gn 41:9 diz: “Então, falou o copeiro-mor a Faraó, dizendo: Dos meus pecados me lembro hoje.”
Por qual razão ele disse isso? Parece totalmente fora de contexto, uma vez que nos versos anteriores temos o relato dos sonhos do faraó e o fato de ninguém ser capaz de interpretá-los diante do governante egípcio.
Apenas contextualizando, o copeiro estivera preso junto com o padeiro do faraó e José por um tempo; lá, ele e o padeiro tiveram sonhos, e José dera a interpretação, e aquilo que sonharam ocorreu em três dias. Então o copeiro saiu da prisão e se esqueceu de José.
Talvez o grande pecado do copeiro-mor tenha sido a ingratidão por José, a quem ele recorreu para o acalmá-lo e interpretar seu sonho. Mas isso não é o importante agora, até porque ele falou “dos meus PECADOS me lembro  hoje” (no plural).
 
O fato é que todos cometemos erros, pedimos ajuda, somos em algum momento amparados por algum ombro amigo, aconselhados, mas acabamos esquecendo. Só que isso volta, e também em determinada situação, o Eterno nos faz lembrar de nossos pecados. A questão é: o que fazemos com essa tal lembrança?
 
O copeiro imediatamente ao se lembrar de José, contou ao faraó que ele era um “interpretador de sonhos” e isso bastou para que a história de José na prisão mudasse.
 
Precisamos ter a consciência tranquila. Quando nos lembramos de algo errado, precisamos agir, e tentar corrigir; nunca esconder em algum lugar lá no fundo da nossa memória, pois se assim o fizermos, estaremos pelo resto da vida carregando um peso na consciência.
 
O próprio mestre Yeshua disse: “se trouxeres a tua oferta ao altar e aí  TE LEMBRARES de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem e apresenta a tua oferta.” (Mt 5:23,24)
É preciso agir enquanto nossa consciência acusa e nossa memória é presente. Então, quando te lembrares dos teus pecados, corrige.
 
O próprio rei Davi foi por tempo atormentado pela lembrança de seus pecados. Num dos seus salmos mais famosos ele dizia: “porque eu conheço as minhas transgressões e o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 51:3)
 
O profeta Jeremias alertava a Israel:
“Dize-lhes mais: Assim diz o Senhor: Cairão os homens e não se tornarão a levantar? Desviar-se-ão e não voltarão? Por que, pois, se desvia este povo de Jerusalém com uma apostasia contínua? RETÉM O ENGANO E NÃO QUER VOLTAR. Eu escutei e ouvi; não falam o que é reto, ninguém há que se arrependa da sua maldade, dizendo: Que fiz eu? Cada um se desvia na sua carreira como um cavalo que arremete com ímpeto na batalha.” (Jr 8:4-6)
 
Não retenhamos o engano, quando o Eterno nos fizer recordar de nossos pecados, façamos o correto, e o correto é corrigir os erros. Encare como uma segunda chance que Ele nos dá de buscarmos o arrependimento. Lembre-se que um simples gesto do copeiro do faraó mudou a história de José. Talvez um gesto nosso possa mudar nossa própria história e a de outras pessoas. Até porque o salmista diz:“um coração quebrantado e contrito não o rejeitarás, ó Eterno!” (Sl 51:17)
 
Aproveite sua segunda chance, boa memória pode nos livrar de continuarmos em dívida com alguém ou com o Eterno.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Vayeshev e o risco dos elogios. Quem aceita que outros sejam elogiados?


A parashah de Vayeshev fala praticamente durante o capítulo todo de Gn 37 sobre o ciúmes e o ódio que os irmãos de José passaram a nutrir por ele. E é interessante quanto ciúmes e inveja fazem mal e mostram nossa personalidade e caráter.
Ao observar o teto de Gn 37:2-4 temos alguns detalhes interessantes:
- José trazia más notícias de seus irmãos ao seu pai Jacó.
Isso não fez com que seus irmãos o odiassem, ou tivessem ciúmes dele. É evidente que ninguém fica feliz quando outros expoem suas características negativas. Os irmãos de José não ficavam felizes, mas isso não abalava sua relação de irmãos.
- Israel amava mais a José do que os demais filhos.
Jacó não tinha José por seu filho favorito pelo fato de este estar sempre do lado dele, ou contar o que os irmãos faziam de errado, ou mesmo porque José era o filho "certinho". José era mais amado por ser o filho da velhice.
Era assim e o é até hoje; o caçula normalmente é o filho mais "bajulado, protegido" e eventualmente "mais amado". Isso também não fez com que os irmãos odiassem a José, mesmo porque ele era o mais amado desde que nasceu, e ele já tinha 17 anos. Não há uma citação de que José fosse odiado pelos irmãos até essa idade.
- Jacó deu uma túnica colorida para José...
Aí sim, surge o ódio dos irmãos pelo caçula. Aí surge o ciúmes. Tanto que, quando José foi alvo do ódio e acabou sendo jogado no poço, a primeira coisa que os irmãos fizeram com ele foi tirar sua bela túnica.
 
A questão não é ser mais ou menos amado, é aceitar que outro seja elogiado, outro receba o mérito, outro ganhe presentes. Isso é o que expoe nosso caráter.
 
Qual o erro de Jacó? Não sei dizer ao certo, mas o problema é o fato de que não há nenhum relato de ele presentear qualquer dos outros dez irmãos que assim como José, trabalhavam, apascentavam o rebanho, e cuidavam do que era do amado pai. Julgo que todos os filhos tinham alguma característica boa, não é possivel que você tenha só filhos ruins e um único que "o máximo".
Se vale um conselho, sugiro que todos sejamos capazes de encontrar e elogiar características positivas em todos os filhos, genros, netos, funcionários, companheiros de trabalho, etc... mas se não o formos, que sejamos capazes de elogiar "os favoritos" em particular; isso evitaria conflitos como o de José e seus irmãos.
 
Mas e o erro dos irmãos, qual foi? A falha deles está no fato de não aceitar que outro ganhasse presente, que fosse "reconhecido" publicamente. Na verdade, a mais absoluta maioria de nós tem essa característica negativa; a diferença é que conseguimos a ocultar, até que.... até que outro seja reconhecido.
 
Já passei por isso algumas vezes recentemente; sem citar nomes (pra não suscitar mais ira) elogiei algumas pessoas que nos visitavam na kehilah, em público. Foi o que bastou pra suscitar o ódio de alguns, que assim como os irmãos de José, agiram boicotando o trabalho, sugerindo que não fossem mais à kehilah, porque o rosh não reconhecia a eles.
Depois de meses, senti no coração de elogiar publicamente no meu blog uma pessoa, por seus méritos; pronto! Foi o que bastou para novamente ser alvo de críticas.
Claro, não sou estúpido de dizer que eu também não sinto ciúmes. Todos sentimos! Mas agir dessa maneira é um erro. Que tal trocarmos o ciúme pelo orgulho? Pirkê avot 4:15 fala: “que a honra do teu discípulo seja tão querida para ti como a tua própria honra.”
 
Vamos ver um outro exemplo bíblico: Saul e Davi.
1 Sm 16 traz o relato de quando Saul era atormentado por um espírito ruim. Então lhe foi sugerido que alguém tocasse uma boa música para ele se acalmar. E chegaram a Davi, de quem foi dito: “sabe tocar, é forte e valente, homem de guerra, de poucas palavras e de boa aparência.” (1 Sm 16:18)
Depois de Davi tocar ao rei, e tendo-lhe acalmado, a biblia diz que o rei o amou, e então Saul mandou dizer a Jessé: “deixa seu filho perante mim, pois achou graça aos meus olhos.” (1 Sm 16:21,22)
 
Davi era um bom servo, amado pelo rei, mas... tudo começou a mudar, e quando mudou?
1 Sm 18:7 - as mulheres cantavam e diziam umas às outras: Saul feriu os seus milhares, porém, Davi, os seus dez milhares.”
Pronto! Acabou a alegria! Davi passou de amado a odiado rapidinho.
1 Sm 18:8,9 - Saul se indignou muito, e aquela palavra pareceu mal aos seus olhos; e disse: Dez milhares deram a Davi, e a mim somente milhares; na verdade, que lhe falta, senão só o reino? Daquele dia em diante passou a olhar a Davi com maus olhos.
 
Devemos observar as pessoas: cuidado com aquelas que só querem ser elogiadas, porque no dia em que outro for elogiado, ela revela seu lado mau.
 
Cabe ressaltar em ambos os relatos, tanto de José quanto de Davi, que eles nada fizeram para atrair o ódio das pessoas. Ambos continuaram amando e respeitando, tanto que, quando José teve a oportunidade de se vingar de seus irmãos, ele os tratou bem, os acolheu, e Davi, quando teve a oportunidade de matar o rei Saul, mesmo incentivado por seus soldados, ele não ousou se levantar contra o rei, e apenas ao cortar a orla do manto de Saul, Davi já sentiu doer-lhe o coração, mas também com essa atitude conteve os seus homens de fazer o mal.
 
Sempre fui adepto de elogiar, de reconhecer o mérito das pessoas, como um incentivo para que continuem a crescer, mas hoje entendo que devemos tomar maior cuidado a fazê-lo, de preferência sozinho, em particular.
Que tenhamos o mérito de saber reconhecer que sim, todos os outros (e você também) possuem virtudes dignas de serem elogiadas e reconhecidas. Se ninguém te reconhece, isso não é problema, pois o Eterno nos vê, e Ele sabe ver nossos méritos. Que nossos méritos venha dEle e não de homens!